segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Conto: O Estranho Sonho de Natalício

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Criação Creation

Um conto sobre a Criação

(Luiz Polito)


Natalício dos Santos recolheu-se tarde ao seu quarto naquela noite. Não estava nem frio nem quente – a noite estava numa temperatura muito agradável para se dormir. Sua esposa Ângela já estava dormindo há algumas horas e Natalício procurou deitar-se com cuidado para não acordá-la. Ele tinha ficado até tarde da noite lendo, como era seu costume, e estivera lendo a respeito dos assuntos de que mais gostava: filosofia e religião.
Natalício tinha esse nome estranho porque nascera no dia vinte e cinco de dezembro, e seu pai, pessoa simples e religiosa, tentara homenagear o dia de Natal ao colocar esse nome nele, que era seu primeiro filho. O nome correto deveria ser Natalino e não Natalício, porém o cartorário estava distraído ao fazer o registro do nome do Natalício, e nem percebeu que natalício é uma palavra que significa dia de nascimento, aniversário, e não tem nada a ver com Natal. E o nome ficou Natalício mesmo.
O sono demorou um pouco a chegar e Natalício meditava sobre o que tinha lido nos últimos dias. Estava particularmente interessado num tema, a criação de todas as coisas, e pesquisara na Bíblia, no Livro de Mórmon e em livros de filosofia a respeito do assunto. Pesquisara na internet também e tinha lido muita coisa sobre cosmologia.
– Como tudo começou? –pensava Natalício- Será que os livros de religião estão certos ou não?
Ele era católico por tradição, porque seus pais eram católicos, mas não freqüentava regularmente nenhuma igreja. Ocasionalmente ia numa ou noutra igreja, de denominações diferentes, mas não tinha se decidido a seguir nenhuma. Ele pegava sempre as literaturas das diferentes denominações religiosas para ler. Já lera livros da Seicho-no-iê, dos Adventistas, dos Espíritas, dos Mórmons, dos Maçons e de tantas filosofias e religiões, que nem se lembrava mais.
Sorriu ao lembrar que seu pai sempre brincava com ele, perguntando: -Natalício, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?
Na primeira vez que seu pai perguntara aquilo, Natalício, então com doze anos, ficara muito confuso com a pergunta. A galinha bota o ovo e é do ovo que nasce a galinha. Quem veio primeiro? E seu pai rira muito, enquanto Natalício não conseguira chegar a nenhuma conclusão.
Aquilo sempre o incomodara e algo dentro dele ansiava muito por entender como tudo veio a existir. Como tudo começou?
Essa pergunta continuava a rodar pela cabeça de Natalício. O sono veio e Natalício adormeceu profundamente. Depois de algum tempo, começou a sonhar.
O sonho é uma coisa intrigante. Freud e outros pensadores achavam que os sonhos tinham significado e podiam responder perguntas quanto à personalidade de quem sonha. Os cientistas acham que o sonho é só uma reação química no cérebro, que provoca as imagens ou sons que vemos ou vimos enquanto sonhamos. Tem filosofias religiosas que afirmam que nosso espírito sai do corpo quando estamos sonhando e que os sonhos são verdadeiras viagens espirituais.
Em seu sonho, Natalício viu-se levitando, subindo rumo ao céu escuro, numa agradável sensação de alegria e paz. Após subir durante alguns instantes, ele começou a voar, voando cada vez mais rápido. Só então percebeu que alguém o puxava pela mão direita, suavemente, e o levava a algum lugar. Aquele ser estava vestido com uma túnica branca. Natalício não sentiu nenhum medo, só sentia uma maravilhosa sensação, o vento gostoso roçando suas faces enquanto olhava as luzes da cidade lá embaixo. Voaram muito até chegarem num lugar esplendoroso – um lugar que parecia um clube de campo ou uma chácara, com muitas árvores e muita grama verde.
Alguém se aproximou de Natalício. Não era o mesmo homem com a túnica branca que o trouxe voando, puxando pela mão. Era um homem que aparentava ter uns quarenta anos, que sorria para Natalício enquanto chegava perto dele. Esse homem sorridente estava vestido com uma roupa brilhante. Natalício não conseguia definir a cor – era algo prateado, uma cor que nunca vira. Assim como também nunca vira as cores lindas das flores que estavam perto deles. Que lugar seria esse? E quem era esse homem?
– Quem veio primeiro, Natalício? – perguntou o homem, assustando Natalício – o ovo ou a galinha? Como tudo começou? Como era tudo quando não existia nada? Por que tudo existe? Por que você existe, Natalício?
No sonho, Natalício não percebeu que estava sonhando. Tudo aquilo era tão real, apesar de ser tudo tão inusitado, que ele deu um passo para trás., num reflexo instintivo, e arregalou os olhos.
– Não tenha medo, Natalício! Eu sou um amigo, não vou machucar você. Eu sou alguém que pode responder muitas das suas perguntas! O que você quer saber, Natalício?
Num milésimo de segundo, já não estavam mais no mesmo lugar. Agora os dois estavam num lugar muito escuro e frio e bem ao longe, Natalício viu um pequeno ponto brilhante. Aquele ponto brilhante era muito estranho e seu brilho muito intenso. Que cor era aquela? Azul avermelhado? Não conseguia definir aquela cor brilhante. De repente, aquele ponto explodiu, como se fosse milhões de fogos de artifício, de todas as cores conhecidas e inimagináveis. Só que Natalício não ouviu nenhum som. Estranho, muito estranho.
– O Big-Bang!- exclamou Natalício, olhando para o homem ao seu lado- Isso que nós vimos explodir sem fazer barulho foi o Big Bang, não foi? E isso aconteceu há bilhões de anos atrás!
– Vamos dizer que seja isso, pois isso é o que você pode compreender por enquanto – disse o homem, em resposta – Mas tem muita coisa que você precisa entender primeiro. Vamos usar esse termo, Big-Bang, e vamos imaginar que isso aconteceu mesmo há bilhões de anos, embora, na verdade, o tempo não exista.
Natalício franziu a testa, intrigado: O Tempo não existe? -pensou ele, enquanto continuava olhando para onde tinha havido aquela “explosão” e agora via as galáxias se formando, numa vertiginosa velocidade.
Adivinhando seus pensamentos, o homem tentou fazer Natalício compreender o mistério do Tempo. O homem explicou para Natalício que “tudo é sem começo e sem fim, e que todas as coisas sempre existiram, existem e sempre continuarão a existir. Elas apenas mudam de condição, de forma, de nível e de utilidade”. E que o que chamamos de “tempo” – ou passado, presente e futuro – na verdade é uma convenção que é válida apenas para certos domínios e lugares. Nos domínios eternos o tempo não existe.
Natalício continuava sem entender direito essa questão de tempo. Toda essa coisa estava deixando ele confuso.
Só agora Natalício se deu conta que não sabia o nome do homem que estava a seu lado – Como você se chama? Se é que você existe mesmo e tem um nome…
-Pode me chamar de Eliel, Natalício. E agora eu vou explicar melhor essa questão de passado, presente e futuro para você. Para isso, pense num criador e numa criatura. O criador construiu uma estrada muito extensa, cheia de curvas, cheia de subidas e descidas, que começava numa cidade e terminava em outra. Uma cidade ficava a dezenas de quilômetros uma da outra. Imagine a criatura, que não conhece a estrada e nem a outra cidade. Só conhece a cidade em que nasceu e viveu. Certo dia, a criatura encontra a estrada e vai caminhando por ela, rumo à outra cidade. Conforme a criatura vai andando, ela vai vendo as árvores, sentindo o aroma das flores, ouvindo o canto dos pássaros ao seu redor. A criatura não sabe o que vem depois, não sabe o que tem além da próxima curva da estrada e nem depois da próxima subida. Ela também não está mais vendo o trecho da estrada por onde passou. Ela se lembra do que já viu, mas não sabe se vem mais alguém pela estrada, lá atrás.
– A criatura só consegue ver o ponto onde está. Ela só vê a estrada até onde sua vista alcança. Ela só percebe o tempo presente, o agora. É tudo o que ela sabe. Ela pode tentar prever o que vem depois, mas certeza, ela não tem. O criador da estrada, porém, conhece cada palmo da estrada, sabe o começo, o meio e o fim. Sabe quem está andando na estrada, se está andando devagar ou se está correndo, o criador sabe tudo. Ele tem uma visão do começo, do meio e do fim da estrada, enquanto a criatura só consegue ver o ponto onde está em sua caminhada. Entendeu agora?
-Acho que sim, Eliel. O tempo só vale para as criaturas, pois o Criador de tudo sabe tudo o que já aconteceu, o que está acontecendo agora e o que vai acontecer depois. O Criador sabe o passado, o presente e o futuro. Para Ele, não existe o tempo, existe a eternidade. Ele vê as coisas de forma diferente de como as criaturas as vêem, pois Ele vê tudo, e Ele sabe tudo.
-Mais ou menos isso, Natalício. E se a criatura tiver vontade própria, e puder tomar decisões, e for livre para ir ou vir pela estrada?-perguntou Eliel – O Criador pode saber tudo o que vai acontecer, sem forçar as suas criaturas a fazer o que ele deseja?
Eliel ficou olhando Natalício, que colocou a mão direita no queixo e virou a cabeça para cima, enquanto pensava no assunto. “Pergunta difícil, essa!…” pensou Natalício.
– Esqueça esse dilema por enquanto, Natalício, porque tenho outras coisas para lhe explicar. Você ainda tem muitas outras perguntas. Aliás, as principais você ainda não fez, não é?
– Posso perguntar qualquer coisa? – Eliel fez que sim com a cabeça, e Natalício sorriu, radiante, porque finalmente alguém ia lhe responder aquelas perguntas que carregara durante toda a sua vida.
– Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Meu pai me perguntou isso quando eu tinha doze anos de idade e eu sempre tive essa dúvida.
-A galinha veio primeiro. A próxima pergunta? – Eliel levantou as sobrancelhas, enquanto olhava para Natalício.
– O que houve antes do Big Bang?
– O que você chama de “Big Bang” é só mais uma das incontáveis etapas da criação. Já houve inúmeros “Big Bangs” e haverão inúmeros “Big Bangs” ainda. O que houve antes de todos os “Big Bangs” é o que você quer saber de verdade, não é?
– O Big Bang não deu origem ao Universo? Eu sempre pensei que o Big Bang era o começo do Universo, pelo menos em relação ao Universo conforme o conhecemos… Você está dizendo que existem inúmeros Big Bangs, ou algo parecido, que dão origem a um número infinito de Universos?– Natalício agora estava ficando meio zonzo.
– Respire fundo, Natalício, pois você entenderá melhor quando eu terminar a explicação. O que você chama de Universo é só uma pequenina parte de tudo o que existe, porque a criação não pára, a criação continua sempre, a cada momento mais uma estrela nasce, mais uma galáxia começa a ser formada… Mas voltemos ao que você perguntou, ou seja, o que aconteceu no princípio de tudo, antes do que você chama de “Big Bang”. Olhe para a sua direita, caro Natalício.
– O que você está vendo, meu amigo? –perguntou Eliel.
– Eu vejo um monte de coisas confusas, desorganizadas, não sei explicar. Tem muitas coisas, não consigo ver o fim delas, tem coisas claras e coisas escuras. É tudo tão caótico nessa massa de coisas sem fim!- exclamou Natalício.
– Caótico! Você acertou em cheio! Aquilo que você vê, é matéria desorganizada. Podemos chamar de caos. Existe matéria desorganizada que não acaba mais. E “criação” é a organização dessa matéria desorganizada. Consegue entender isso?
-Acho que sim. Explicado dessa maneira, parece tudo fácil demais…Existe matéria que não está organizada, e alguém, um criador, digamos assim, organiza a matéria, dá forma à matéria inorganizada. Assim, podemos dizer que um criador é um organizador de matéria inorganizada?
-Exatamente. E existem muitos criadores. Cada um, responsável por uma parcela dos “Universos” que ele criou, ou de partes de “Universos”, a partir da matéria desorganizada, ou melhor explicado, matéria que ainda não foi organizada. Chamamos mesmo de matéria inorganizada.
-Eu pensava que só existisse um Criador, se é que o que eu aprendi em algumas igrejas for verdade mesmo. Existem muitos criadores?
-Sim, existem muitos criadores “menores”, todos subordinados a um Criador maior, o Primeiro Criador. O primeiro de todos os outros criadores não é egoísta e ele quer que todos tenham a alegria e realização que ele tem de criar, ou organizar, por isso ele permite que muitos se tornem iguais a ele. Ou quase iguais a ele. Ele tem algumas prerrogativas que só pertencem a ele. Não que ele não confie nos seus filhos, que já chegaram a ser criadores e conhecem todas as coisas que o primeiro criador conhece. Ele, o primeiro Criador, apenas mantém alguns segredos conhecidos só por ele mesmo. Só por segurança, digamos assim.
– Mas ainda existe um grande mistério: e o primeiro criador, como ele surgiu ou começou a criar ou organizar as coisas?
-Temos pouco tempo agora, Natalício, e vou ser breve na minha resposta. Futuramente talvez venhamos a nos encontrar novamente e explicarei tudo com mais detalhes. Vou explicar como tudo começou, inclusive como surgiu o primeiro criador e todos os outros criadores e todas as criaturas, inclusive você e eu. Preste muita atenção, pois não vou ter tempo de repetir.
-Sempre existiu matéria inorganizada. Infinita quantidade de matéria inorganizada. No meio dessa matéria inorganizada, ou caos, tinha matéria e energia, digamos assim, de todas as formas possíveis e imagináveis – ou inimagináveis. Ninguém sabe quando aconteceu, mas aconteceu, tanto é que eu estou aqui e você está aí, nós e todas as coisas existimos.
-Voltando ao ponto, ninguém sabe quando aconteceu, mas aconteceu de que uma das energias, digamos assim, começar a ter consciência de sí mesma. Uma daquelas infinitas energias, que sempre existiram, começou a sentir-se consciente de si mesma. Era uma consciência, digamos assim, ainda simples, mas essa consciência simples começou a tentar organizar as coisas que percebia ao seu redor. Digamos que essa consciência simples começou a “ver” o caos ao seu redor e começou a organizar um pouquinho de matéria que estava por perto. Essa consciência foi se aprimorando, e conseguindo organizar mais e mais matéria inorganizada. Quanto “tempo” isso levou, dessa consciência se tornar consciente de si mesma, ninguém poderá saber, talvez, mas o fato é que fui muito tempo. Depois outras energias também começaram a se tornar conscientes, só que a primeira consciência já estava muito mais adiantada, já era um organizador muito mais consciente, já era um criador, o Primeiro Criador.
-Devido ao fato do primeiro criador já dominar muito da matéria que antes era inorganizada, e também saber controlar as energias que existia junto com as “coisas” junto da matéria inorganizada, ele tinha maior poder, e podia controlar os outros “criadores menores”. Incontáveis eras se passaram, e matéria inorganizada era organizada- ou criada- e assim tudo foi formado, ou organizado, ou criado.
-E o propósito original de todas as “energias inteligentes”, que foram surgindo e estão surgindo, é se tornarem criadores, para que tenham “alegria” e “realização”. Esse é o propósito de sua existência também, Natalício: ser um organizador ou criador – começando por uma infinitamente pequena quantidade de “matéria inorganizada”, ou “semi-organizada”, e crescendo em “responsabilidade” ao longo do “tempo”.
-O meu tempo está acabando, Natalício. Você estendeu tudo o que expliquei?
-Na verdade, tenho mais perguntas agora, do que tinha quando conheci você. Por que você diz que não tem mais tempo? Eu quero ficar conversando com você ainda por muito tempo. Por exemplo, eu gostaria que você me respondesse como é o Primeiro Criador. Ele é uma pessoa ou uma energia?
Nesse momento, Natalício escutou um som horrível, que lhe fez cair num abismo. Foi caindo, caindo, até abrir os olhos, e perceber que era o despertador que tocava. Eram sete horas da manhã, e sua esposa estava de pé, olhando para ele. Natalício demorou alguns segundos para falar alguma coisa. Ainda tinha uma forte sensação da presença do Eliel, e ainda ouvia em sua mente as palavras que ele falara. Foi um sonho! Mas que sonho!
– O que você tem? Perguntou Ângela, vendo a cara enigmática de Natalício. –Parece que você viu um fantasma!
– Vi muito mais do que isso em meu sonho, Ângela! Muito mais do que você pode imaginar…
Ambos foram tomar o desjejum. Natalício, a contragosto, foi para o seu escritório, e Ângela foi acordar os filhos para irem para a escola. E a vida deles continuou normalmente. Ou quase normalmente
Já se passaram dois anos desde que Natalício teve aquele sonho estranho e maravilhoso, e ele espera ansiosamente, desde o dia que sonhou com Eliel, para que ele, Natalício, tenha a chance de fazer tantas outras perguntas que ele tem agora.
Será que foi sonho mesmo aquilo tudo? – sempre se pergunta Natalício.

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